domingo, 22 de julho de 2007

O passado

Decidiu fazer um “tour” especial: iria percorrer – todos! – os lugares em que havia estado com ele! As amigas se dividiram: algumas acharam um desperdício, tantos lugares novos a serem desvelados; outras sugeriram masoquismo em grau avançado, que idéia louca era aquela; umas poucas perguntaram se ela iria acompanhada, se era vingança, despacho do passado, coisa do gênero. Sim, Ela respondeu, é coisa do gênero e, embora a palavra despacho não lhe parecesse muito simpática, entendia aquilo como uma espécie de exorcismo do passado. Algo necessário para retomar a vida, ah... estava lendo livros de auto-ajuda demais. Na próxima ida à livraria, compraria um Saramago, não podia esquecer isso...
Começou com os bares. Entupiu-se tanto de tequila que chegou a cogitar os alcoólicos anônimos. Depois vieram os restaurantes. Para compensar os quilos adquiridos, decidiu que o próximo passo seriam as trilhas. Ah, as trilhas! Os dois juntos, a natureza selvagem... começou a achar que até os tatus-bola se compadeciam do seu sofrimento. Enfrentou até uma viagem, contra todos os argumentos de sua conta bancária, para outro estado: aeroportos, filas, quarto solitário de hotel, passeios turísticos com olhos lacrimejantes. Definitivamente, essa coisa de despacho era trabalhosa, onerosa e dolorosa! Enfrentou bravamente, para desespero das amigas- que agora por unanimidade a julgavam desequilibrada -uma noite solitária num motel. Tomou um banho de banheira e duas garrafas de vinho. Seria necessário mais do que isso, mas se lembrou do AA...
Enfim, Ela reviveu o passado para vencê-lo. Não podia ignorá-lo, não podia suportá-lo. Tinha de enfrentá-lo. Achou-se estóica, adulta, curada. Depois do último lugar revisitado, foi para casa com uma sensação de alívio. Podia recomeçar.
Tomou um copo de leite, colocou uma camisola confortável de quem não tem amante e, exaurida do “tour”, dormiu. Sonhou com ele a noite toda. Suas mãos, sua boca, sua voz. Acordou arrasada. Mais do que expurgar seu passado, era preciso – Ela entendeu – despachar o seu presente. E seu futuro tão milimetricamente organizado em torno dele. Mas como reviver o que não foi vivido? Pensou em mãe-de-santo. Definitivamente, estava desequilibrada. Chorou da inutilidade de seus exorcismos... Nem a tequila, nem o vinho conseguiriam salvá-la. A essa altura, nem mesmo Saramago...

9 comentários:

Daniele disse...

Fantástico, Tereza.
Mas que tortura a dela hein? O problema é que muitas vezes, a gente faz essa tortura é dentro da nossa própria mente.
Aí a coisa fica complicada. Talvez eu tenha mesmo que exorcisar o passado..

Parabéns pelos textos! ;D

Renata Valverde disse...

Tereza,

Lendo seus textos aqui me pergunto: Por que não os encontrei antes? Apenas alguém com a sua sensibilidade e o seu dom das palavras para traduzir os nossos sentimentos com tanta sinceridade. Que saudades das suas aulas, das suas estórias....Os textos são belíssimos, me identifiquei muito com eles. Tenho a sensação que alguns deles expõe exatamente o que se passa no interior da minha alma. Muito obrigada por nos dar esta oportunidade de conhecê-los e assim me sentir um pouco mais compreendida.
Beijos de um antiga aluna e eterna admiradora!
Renata

Isa disse...

Sempre incrível! Sou sua fã incondicional, desde 2001 quando fui sua aluna no Galois. E cada dia mais...

Anônimo disse...

hehehehehehe


quando penso q daqui a umas poucas semanas (eu espero), voltarei a ter aulas com voce!
hehe
ou tah pensando q é sempre q se tem a chance de aprender e conhecer um mundo novo com um guia assim tao brilhante?

sempre inesqueciveis, voce e seus textos!
bjin

Newton Neto disse...

Eu achei que esse ia ter um final alegre; que o demônio - espírito do passado, tão presente (no presente) - seria exorcizado. Até iria me inspirar, usando o pseudo-masoquismo como algo de cura. Embora a cura que eu precise seja diferente, já que eu preciso fazer o espírito do passado ser presente novamente. Você entende, han?
Essas coisas humanas são tão...
dolorosas!
Talvez os livros de auto-ajuda, de novo...?
Saudade... em demasia.
Amor em demasia;
pelas suas palavras...
Um beijo!

Ênio César disse...

Ao Amor Antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

O tal do amor antigo!!!

Obrigado pela visita ao meu blog e pelas belas palavras.

Ênio

Ênio César disse...

Esclarecimento (aos visitantes!): o texto transcrito em meu comentário é de Drummond.

Renata Guimarães disse...

Oi Tereza!!!!
Quantas saudades, sempre venho aqui me distrair um pouquinho! Adoro suas histórias e morro de saudades delas e principalmete de vc!
1000 Bjs pra vc.
Renatinha.

Mila disse...

Sonhos são tão cruéis, né?
Quando nosso consciente pensa que estamos bem, vem nosso inconsciente e nos diz o contrário..

(fui tua aluna no obcursos)