sábado, 29 de agosto de 2009

Cicatrizes

Era fascinada por cicatrizes. Desde pequena. Na pele dos outros, provocavam curiosidade – o que foi isso? – e Ela passava a mão, sem repulsa alguma, apenas fascínio. Na própria pele, as feridas eram pacientemente olhadas e, tornadas cicatrizes, admiradas. Não, não era masoquista. Jamais pensou em ferir a si mesma para que lhe nascessem aquelas marcas. Mas as quedas naturais e inevitáveis da infância lhe deixaram algumas, que ela nunca tentou esconder. Crescida, descobriu que o que lhe atraía nelas não era a forma ou a estética – era a simbologia. Cicatrizes representavam cura, superação - indelevelmente impressa na pele - da ferida e da dor. Cicatrizes eram um troféu, algo que só os que sofreram e transcenderam o sofrimento podiam ostentar, evidências de vida arriscada e plena. Crescida ainda mais, descobriu as cicatrizes invisíveis – as da alma, do coração. Sensível, Ela encontrou uma maneira de percebê-las nos outros, pelo olhar, e contemplava admirada as almas em que as antigas feridas – outrora tão abertas e insuportavelmente dolorosas – eram apenas cicatrizes... Sentia por essas almas uma forte comoção, mais que isso, uma devoção, como se elas lhe fossem superiores. Achava extraordinário tudo isso.
Até que seu coração foi ferido. Sangrou como os jovens corações feridos sangram: descompassada e demasiadamente. A sensação era desagradável e parecia eterna. Então lembrou-se das cicatrizes. Lembrou-se de que elas só existiam com dor prévia, não se conquistava uma impunemente. Rastreou o seu corpo em busca daquelas marcas, evidências da sua capacidade de superar, de recomeçar. Então sorriu, certa de que seu coração pararia de sangrar, cicatrizaria: era apenas uma questão de tempo, que Ela, jovem, tinha abundantemente. Passado esse tempo, Ela enfim entraria naquela categoria superior e, devota de si mesma, exibiria aquele troféu invisível àqueles que não enxergam a alma. Apenas a certeza disso já era suficiente para estancar o sangue que há pouco ainda jorrava. Paciente e extasiada, esperava por ela...

2 comentários:

pedrolizejah disse...

que sensibilidade!

Que seria a experiência senão as cicatrizes na alma, hehe.

Raysson disse...

Ah! Como eu amo suas crônicas.

Leio e releio desde 2006, quando fui seu aluno no 3º ano.

Se um dia sair um livro com elas, serei o primeiro da fila na noite de autógrafos.