sábado, 29 de agosto de 2009

Cicatrizes

Era fascinada por cicatrizes. Desde pequena. Na pele dos outros, provocavam curiosidade – o que foi isso? – e Ela passava a mão, sem repulsa alguma, apenas fascínio. Na própria pele, as feridas eram pacientemente olhadas e, tornadas cicatrizes, admiradas. Não, não era masoquista. Jamais pensou em ferir a si mesma para que lhe nascessem aquelas marcas. Mas as quedas naturais e inevitáveis da infância lhe deixaram algumas, que ela nunca tentou esconder. Crescida, descobriu que o que lhe atraía nelas não era a forma ou a estética – era a simbologia. Cicatrizes representavam cura, superação - indelevelmente impressa na pele - da ferida e da dor. Cicatrizes eram um troféu, algo que só os que sofreram e transcenderam o sofrimento podiam ostentar, evidências de vida arriscada e plena. Crescida ainda mais, descobriu as cicatrizes invisíveis – as da alma, do coração. Sensível, Ela encontrou uma maneira de percebê-las nos outros, pelo olhar, e contemplava admirada as almas em que as antigas feridas – outrora tão abertas e insuportavelmente dolorosas – eram apenas cicatrizes... Sentia por essas almas uma forte comoção, mais que isso, uma devoção, como se elas lhe fossem superiores. Achava extraordinário tudo isso.
Até que seu coração foi ferido. Sangrou como os jovens corações feridos sangram: descompassada e demasiadamente. A sensação era desagradável e parecia eterna. Então lembrou-se das cicatrizes. Lembrou-se de que elas só existiam com dor prévia, não se conquistava uma impunemente. Rastreou o seu corpo em busca daquelas marcas, evidências da sua capacidade de superar, de recomeçar. Então sorriu, certa de que seu coração pararia de sangrar, cicatrizaria: era apenas uma questão de tempo, que Ela, jovem, tinha abundantemente. Passado esse tempo, Ela enfim entraria naquela categoria superior e, devota de si mesma, exibiria aquele troféu invisível àqueles que não enxergam a alma. Apenas a certeza disso já era suficiente para estancar o sangue que há pouco ainda jorrava. Paciente e extasiada, esperava por ela...

domingo, 22 de julho de 2007

O passado

Decidiu fazer um “tour” especial: iria percorrer – todos! – os lugares em que havia estado com ele! As amigas se dividiram: algumas acharam um desperdício, tantos lugares novos a serem desvelados; outras sugeriram masoquismo em grau avançado, que idéia louca era aquela; umas poucas perguntaram se ela iria acompanhada, se era vingança, despacho do passado, coisa do gênero. Sim, Ela respondeu, é coisa do gênero e, embora a palavra despacho não lhe parecesse muito simpática, entendia aquilo como uma espécie de exorcismo do passado. Algo necessário para retomar a vida, ah... estava lendo livros de auto-ajuda demais. Na próxima ida à livraria, compraria um Saramago, não podia esquecer isso...
Começou com os bares. Entupiu-se tanto de tequila que chegou a cogitar os alcoólicos anônimos. Depois vieram os restaurantes. Para compensar os quilos adquiridos, decidiu que o próximo passo seriam as trilhas. Ah, as trilhas! Os dois juntos, a natureza selvagem... começou a achar que até os tatus-bola se compadeciam do seu sofrimento. Enfrentou até uma viagem, contra todos os argumentos de sua conta bancária, para outro estado: aeroportos, filas, quarto solitário de hotel, passeios turísticos com olhos lacrimejantes. Definitivamente, essa coisa de despacho era trabalhosa, onerosa e dolorosa! Enfrentou bravamente, para desespero das amigas- que agora por unanimidade a julgavam desequilibrada -uma noite solitária num motel. Tomou um banho de banheira e duas garrafas de vinho. Seria necessário mais do que isso, mas se lembrou do AA...
Enfim, Ela reviveu o passado para vencê-lo. Não podia ignorá-lo, não podia suportá-lo. Tinha de enfrentá-lo. Achou-se estóica, adulta, curada. Depois do último lugar revisitado, foi para casa com uma sensação de alívio. Podia recomeçar.
Tomou um copo de leite, colocou uma camisola confortável de quem não tem amante e, exaurida do “tour”, dormiu. Sonhou com ele a noite toda. Suas mãos, sua boca, sua voz. Acordou arrasada. Mais do que expurgar seu passado, era preciso – Ela entendeu – despachar o seu presente. E seu futuro tão milimetricamente organizado em torno dele. Mas como reviver o que não foi vivido? Pensou em mãe-de-santo. Definitivamente, estava desequilibrada. Chorou da inutilidade de seus exorcismos... Nem a tequila, nem o vinho conseguiriam salvá-la. A essa altura, nem mesmo Saramago...

terça-feira, 29 de maio de 2007

Alugam-se fantasias

O lugar cheirava a passado. Um cheiro desagradável de passado. A organização excessiva contrastava com o ar decadente. Uma loja de aluguel de fantasias. Havia de tudo: um mosaicos de ciganas, mickeys, piratas, freiras, odaliscas - uma democrática convivência entre seres diferentes. Em um cabide, um árabe parecia desejar a baiana que se escondia atrás do vestiário. Uma barbie retrô suspirava e se oferecia a um bombeiro. Lugar de fantasias...
Entrei admirada, acanhada, assustada - confesso que senti um mal-estar estético. Entre bijuterias descascadas e máscaras de Veneza, surgiu Ela. Administrava aquele lugar, foi logo falando, há vinte anos. Ela mesma confeccionara a maioria daquelas roupas, sabia detalhes dos chapéus, das perucas, dos óculos bizarros... Pelos olhos, pela voz, pelos gestos, percebi - sem dificuldades - que era uma mulher amarga. Daquele tipo de amargura que mais comove que repudia. Disse-lhe que precisava virar cigana naquele sábado. Ela sorriu como sorriem os vendedores e me conduziu por entre os corredores. Posso jurar que ouvi gemidos, sussurros. Um pierrot parecia implorar por liberdade. Três anjos decaídos se lançaram em mim e pediram salvação. Uma espanhola triste olhava-me em silêncio: resgata-me, dizia.
Ela achou a cigana. Vestiu-me, ornamentou-me. Eu me sentia uma boneca nas mãos dela. Fitava-a enquanto ouvia as suas lamentações: estava cansada, nunca tirara férias, há anos não ia a uma festa, a um cinema... Em torno, os outros clientes faziam barulho, excitados com a diversão que estava por vir. Mas Ela não se divertia: alugava fantasias, comercializava alegria. Mas não as tinha - nem fantasias, nem alegrias. Estava presa nos seus rancores, nos seus cansaços. Levei a cigana para casa. À noite, ela era eu. A cigana dançou, gargalhou, viveu. Uma cinderela de vestido vermelho, colares, flores no cabelo... A festa acabou. A cigana ficou sobre a cadeira do meu quarto durante todo o domingo. Estava exausta de tanta vida.
Na segunda, pus a cigana em um cabide e seus adereços em uma caixa. Precisava levá-la para casa. No carro, ouvi o seu choro sentido. Leva-me para tua casa, ela me pediu. Não posso... As mão enrugadas da mulher rancorosa conferiram a cigana: procurava danos, cortes, manchas. A cigana estava intacta. As mãos rancorosas a colocaram no canto, entre colombinas sujas e zorros amassados. Despedi-me da mulher com gosto de choro na boca. Deixei aquele lugar decadente tomada pela melancolia. Entrei no carro apressada.
Enfrentei a minha rotina, uma prisão involutária a que muitos estamos presos. O pedido da cigana ecoava em meus ouvidos. A solidão da mulher apertava-me o peito. Aquelas duas até agora me perseguem. Uma, prisioneira; outra, o carrasco. São marcadas ambas pelo mesmo desejo. Liberte-me, ouço insistentemente, liberte-me...

quinta-feira, 26 de abril de 2007

A gata blasé

Não me lembro ao certo como eles foram chegando. O fato é que chegaram. Sorrateiros, desconfiados, invasivos... chegaram. E aqui estão eles, os quadrúpedes da minha casa, que, com os bípedes, formam a minha excêntrica família. Otho Atônio e Jade Augusta são caninos e meio-irmãos. Ele é invasivo, espaçoso e ciumento. Ela, acanhada, ainda está reconhecendo o espaço e por ele sendo reconhecida. Eowin Maria é uma felina. Os ingleses diriam que é low profile, eu digo que ela é ... . Otho e Eowin estão comigo há algum tempo, já adivinham minhas chegadas e ausências, já pressentem minhas lágrimas, já antecipam os meus risos. São companheiros. São opostos. Ele é subserviente: olha-me sempre como quem implora um último carinho, humilha-se para ganhar atenção, morreria - fielmente - por mim. Comove-me e irrita-me. Eowin tem um ar blasé que chega a ser ofensivo: com a postura superior dos felinos, contempla, altiva, todos os subterfúgios de Otho Atônio para chamar minha atenção. Contempla e entedia-se. Olha para mim como a desculpar-se da atitude pouco nobre do colega. Distancia-se. Ela - e não eu - decide se quer carinho, quando e por quanto tempo quer. Eowin Maria está no controle. Levanta-se lânguida e afasta-se do meio de nós, os descontrolados. Isola-se no quarto, no parapeito da janela - desafiando, provocadora, a altura do sexto andar- na cozinha. Eowin só faz o que quer. Tem seu próprio tempo. Não faz concessões.É soberana, lenta e, apesar de ser uma nobre vira-lata, tem a postura dos eleitos. Otho pula sobre meu colo, quer lamber meu rosto, quer se sacrificar por mim. Eowin suspira, lentamente fecha os olhos, postura firme, parece dormir em estado de alerta. Acabado o show canino, ela levanta-se e se aproxima de mim. Quer carinho. Mas não pede. Não exige. Recebe aquilo que é seu por mérito. Logo se cansa. Abandona-me. Vou atrás dela, perturbo-lhe com minhas efusivas manifestações de afeto. Ela me desdenha. E eu entendo o óbvio: eu sou o Otho Antônio da Eowin. Sinto-me ridícula. Olho bem para a gata procurando captar-lhe a essência. Quero encontrar o ângulo exato do seu olhar blasé, quero ser lânguida e estar no controle. Oh, Deus, quero ser Eowin Maria!

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

O herói que Ela merece

- Vamos, amiga. Você vai se divertir...
Pronto. Aquela era a senha para encrencas: semre que alguém dizia isso, Ela sabia que algo bizarro aconteceria... Os amigos estavam empenhados, Ela não sabia por que, em tirá-la de casa e fazê-la se divertir. Para não ser anti-social, Ela disse "Vamos" com um frio na barriga.
Era uma festa de família. Uma grande festa: o avô da amiga completrara 90 anos, era preciso comemorar. Salão de clube, comidinhas e bebidinhas, uma banda meio decadente tocando músicas para quem faz noventa... Velhas matronas de laquê no cabelo, quarentões com cara de tédio, jovens dançando descompassadamente bolero, crianças histéricas ou sonolentas: era esse o cenário da festa. Ela lembrou-se que o seu conceito de diversão devia estar desatualizado. Mas entrou na onda: comeu, bebeu, dançou com um senhor rezando para que não fosse preciso lhe darem oxigênio ou usarem o desfibrilador no final do iê-iê-iê...
Como tinha ido de carona com a amiga, Ela esperou até o fim da festa. Eram três da madrugada quando entraram no carro. Ela, a amiga, a mãe da amiga, o irmão da amiga. Ela foi atrás com a jovem senhora. Já estava quase dormindo, quando ouviu um "Ai, meu Deus". Por causa do asfalto molhado pela chuva que assolava a cidade há dias, o carro se desgovernou. Rodopiaram na pista durante alguns segundos. Gritos histéricos rompiam o silêncio da madrugada. O carro parou. A jovem senhora e Ela estavam de cabeça baixa: não queriam ver o estrago. "Nós morremos, nós morremos", repetia a mãe da amiga. "Calma, senhora, está tudo bem", Ela dizia sem muita convicção. Ouviu o barulho de uma moto parando perto do carro. Não sabia escolher entre o alívio -era uma alma caridosa a socorrê-los - e o medo - era algum alma oportunista a assaltá-los. Ela levantou a cabeça devagar e olhou através da janela. Fechou os olhos. Abriu, olhou novamente. Definitivamente, a jovem senhora estava certa: estavam todos mortos. E no inferno! Desceu da moto jogando a sua capa para trás, num gesto teatral, adivinhem? Batmam! Na garupa, timidamente olhando a cena, o Robin. Batman gritava se todos estavam bem! Definitivamente, Ela tinha morrido. Batman ajudou todos a saírem do carro, ligou para a polícia, sugeriu chamar a ambulância. Ela riu da ironia: ambulância para mortos? Não seria mais adequado o rabecão?
Talvez fosse o sono, talvez a bebida, talvez a ansiedade despertada pelo octagenário prestes a morrer durante a balada de Roberto Carlos. Talvez fosse lentidão natural de raciocínio. O fato é que Ela demorou para entender a situação. Batman e Robin voltavam de uma festa gls que ocorrera perto do clube. Uma festa à fantasia. Passavam pelo local do acidente no momento fatídico. Batman disse a Ela, enquanto a abraçava respeitosamente, que foi "a coisa mais horrível que ele já vira: um carro rodopiava na pista e ele, impotente, nada posia fazer". Um batman impotente... não faltava mais nada. Tomadas as devidas providências (guincho, seguro, ocorrências), chamaram um táxi.Sem dúvida, a presença daquela estranho homem-morcego fora crucial no feliz desfecho da noite: Ela lhe deu um beijo de agradecimento. Viu de soslaio que Robin fez uma careta. Ainda perplexa com tudo, Ela viu Batmam chamar o parceiro e dizer-lhe que precisava de colo. Iria ter um ataque histérico. Decidida a preservar a imagem do seu herói da infância, ela entrou no táxi e encostou a cabeça no vidro, fechando os olhos. Não se lembra ao certo como chegou em casa. No dia seguinte, ligou a televisão num desses canais que passam seriados antigos. Encontrou o seu herói. Sorriu. A amiga tinha razão, afinal. Foi uma noite divertida!

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Ela, a quem falta ousadia

Ensaiava o gesto com freqüência em seus momentos de devaneio. Tocaria em sua mão levemente. Ou acariciaria o seus cabelos. Ou então, com o dorso da mão, pecorreria sua barba por fazer. Depois, com gentileza e ousadia, beijaria e sua boca. Achava que não seria necessário nada dizer, mas diria algo desnecessário: "Gosto de você, amigo." O gesto estava ensaiado, a fala mais ou menos memorizada. A gentileza, Ela naturalmente tinha. Faltava-lhe - oh, desgraça - faltava-lhe a ousadia.
Eram amigos, confidentes. As conversas que tinham eram invariavelmente longas e de uma dualidade mágica: alternavam trivialidades com filosofia, fofocas com catarses. Tinham lido os mesmos livros, gostavam das mesmas músicas, padeciam do mesmo gosto pela solidão. Eram amigos. Um dia, Ela o olhou de modo diferente. Deteve-se no contorno dos seus lábios, observou suas mãos, sentiu sua pele quando o abraçou. Desejou aquele homem como não se deseja um amigo. Assustada, Ela sentiu seu coração aos pulos, sua respiração ofegante. Teve vontade de abraçá-lo. Não, teve vontade de ser abraçada por ele. Um abraço lento, intenso, não-casto... Mas o ouviu dizer "oi,amiga" e se lembrou: eram amigos.
Aquele dia desencadou nela um total desconcerto. Aquele era um homem proibido: tinha uma companheira, parecia amá-la. Aquele homem a fazia repetir o padrão dos amores difíceis. Ainda assim, desejava-o. Esperava uma oportunidade para lhe dizer isso. Poderia ser rejeitada, poderia ser amada. Precisava ser sincera, afinal não é isso que os amigos fazem? As longas conversas continuavam. Frivolidades e Nietsche. Ela sentia seu corpo tremer. Fofocas e Sartre. Ele sorri displicente. Pão-de-queijo e Schopenhauer. Ela focaliza sua boca. Ela ensaia o gesto. Maldita ousadia...

domingo, 28 de janeiro de 2007

Ócio e caos: lições de física

Vejo o milagre da multiplicação da louça suja acontecer na pia da minha cozinha...Ah! Como deve ser bom viver no que os italianos chamam de “dolce far niente”. Como parece mais fácil deixar as coisas acontecerem. Como é mais cômodo o não: não se desgastar, não se envolver, não fazer. Deixar as coisas seguirem seu rumo e abraçar a lei do menor esforço... Tudo conspira a favor disso: o tempo é pouco, o cansaço é muito, a luz fascinante do prazer fácil e efêmero nos atrai. É preciso coragem (e muita) para vencer tudo isso e enfrentar o fluxo do comodismo. Há muito tempo – talvez na minha Idade Média -, aprendi, em uma aula de Física, o conceito de entropia, que é mais ou menos assim: tudo caminha naturalmente para o caos e é preciso gastar energia para manter a ordem. Quando aprendi isso – se não for bem assim, a culpa não é do meu professor, mas da minha subjetividade -, jamais imaginei metaforizar a situação. Mas hoje vejo que a analogia é óbvia e inevitável: a tendência natural é abandonar-se e, se não quisermos pagar o preço do caos que vai se instalar, devemos (ah! como isso é difícil e exaustivo e desumano e desinteressante) gastar nossa preciosíssima energia! Não é muito mais fácil deixar o copo sujo no lugar mais próximo à nossa mão? Por que então preciso deixá-lo na pia e (pior!) lavá-lo?! Não é muito mais fácil bater papo, ouvir música, não fazer nada em de (argh!) organizar a papelada, ir ao banco, arrumar o guarda-roupa? Não é muito mais fácil dormir do que do que ir ao supermercado e enfrentar aquela maratona prateleira-carrinho-esteira-carrinho-carro-carrinho-prateleira? Por que, então, temos de lavar louça, estudar, trabalhar, se há tantas formas mais prazerosas de gastar energia?! Porque não queremos o caos! Definitivamente, não queremos o caos: o descontrole sobre nossa vida, a desordem confusa e aparentemente irreversível não nos interessam. Se não o queremos, cabe a nós evita-lo, gastando energia com tarefas cuja execução é um exercício de superação do tédio! Dentro de minha estreita e superficial lógica, penso que é mais fácil manter a ordem do que consertar o caos! Vou à pia, não me resta alternativa. Minha argumentação me convenceu...

domingo, 21 de janeiro de 2007

Crise zodiacal, sem Prozac

Apesar da formação cristã-católica, costumava, às escondidas, consultar o horóscopo diariamente. Abria discretamente o jornal e lia o que o dia reservava para os nascidos sob o domínio de sagitário. Se alguém a flagrava , disfarçava com um ar de desdém: “Eu lendo horóscopo? Imagina. Vocês não me conhecem.! Estou vendo os quadrinhos!” Mas lia. E no fundo, achava que aquilo não era assim tão pagão. Na verdade, via semelhanças entre o que o signo apregoava e seus gostos e ações. Semelhanças demais para serem meras coincidências. Fosse o tempo medieval,merecia a fogueira dos hereges... Achava o máximo ler, nas revistas dos salões de cabeleireiros, as características da mulher de sagitário: livre, independente, alegre e cativante. Gostava especialmente quando a definiam como uma mulher de “raça apurada”. Com o tempo, as previsões zodiacais passaram a nortear suas decisões mais sérias. “O horóscopo, uma taça de vinho, uma decisão tomada”. Simples assim.

Um dia – daqueles que começam traiçoeiramente comuns como todos -, um colega comentou que gostava de astrologia e que fazer mapas astrais era a sua mais atual terapia. Ela olhou e silenciou: a sala estava cheia demais para se comprometer. Mais tarde, na primeira brecha em que se encontrou com o colega, pediu-lhe, assim-como-quem-não-quer-nada, que lhe fizesse seu mapa “astrológico, ah! Não... astral. Não entendo mesmo dessas coisas...”. Ele solicitou os dados precisos do seu nascimento. Ela recorreu à mãe. A mãe recorreu à sua sempre boa memória. Elas confirmaram na certidão. Dia 21 de dezembro, às sete da noite. Último decanato de sagitário. Repassou os dados ao amigo, mas, antes, consultou a previsão para o seu signo naquele dia. “Você poderá ter a sua vida transformada em função de uma notícia. Prepare-se.” Teve calafrios... Ou aquilo era um mau presságio ou ficaria resfriada. Por precaução, tomou uma aspirina.

Outro dia – daqueles que parecem como todos os outros -, o colega a procurou com o trabalho realizado. Orgulhosamente segurava uma pasta, com desenhos enigmáticos e todo o tipo de informação zodiacal: humor, amor, trabalho, família, destino, essas coisas... Antes de lhe entregar a pasta, entretanto, ele comentou displicente: “Nossa! Por pouco você seria uma sagitariana.” Como assim? Seria? O pressuposto disso é que ela não era! Fingiu indiferença. Correu para a sua mesa e olhou o laudo. Não foi difícil ler a palavra Capricórnio. Não, não podia ser... devia ser um erro. Respirou fundo, procurou o colega, confessou, envergonhada, a sua perplexidade. Sempre se julgou uma “raça apurada”, sempre agiu e viveu sob a influência de sagitário. Ele não podia agora, logo agora em que ela entrava na crise dos quarenta, desmoronar sua identidade... Isso ela não admitia! Ele calmamente lhe explicou que a regência dos signos mudava às dezoito horas e quarenta e cinco minutos do dia 21 de cada mês. Incrédula, ela tentou usar a lógica: oras, o dia acaba à meia-noite para todos, é uma convenção cultural universal. Ele disse que os astros têm suas próprias convenções. Ela sentiu o mundo desabar. Sequer se lembrava da representação de Capricórnio: era um unicórnio ou coisa parecida?... Ah... já estava contabilizando o valor das sessões de terapia: com certeza gastaria uma fortuna para se ressignificar. O colega voltou e disse: “Não sei como você não percebeu. É claro que você é capricorniana!”.

Sozinha em sua sala, acessou um site de busca, digitou “mulher de capricórnio” e clicou enter. Apareceram dezenas de páginas. Abriu uma qualquer, não estava em condições de decidir.Começou a ler timidamente as palavras. Mulher forte e segura, com grande dose de sensibilidade. Isso a animou. A mulher capricorniana é uma grande organizadora e dá muita importância à carreira, sem negligenciar a família. Isso definitivamente era bom! Ela descobriu em segundos que era uma excelente conselheira e tinha muito senso prático. Era segura e tinha uma auto-estima equilibrada. Uau! Essa era ela! Bem que percebia que aquela coisa de sagitariana era um pouco forçada... bem que percebia! Quando leu que ela era empreendedora, pragmática e capaz de agregar pessoas a seu redor, sorriu! Não precisava mais de terapia! Aliás, as capricornianas não precisam disso! Levantou, pegou a bolsa, rodopiou pela sala. Os colegas, boquiabertos, ouviram-na dizer que sairia mais cedo. Ela saiu radiante. Foi ao shopping mais próximo e comprou aquela sandália lindíssima-carísssima em que estava de olho há dias: iria sobrar dinheiro com a dispensa da terapia. De salto alto,tomando um capuccino, olhou ao seu redor. Era uma mulher bem resolvida. Era um capricorniana. É claro. Como não percebeu isso antes?...

domingo, 14 de janeiro de 2007

Tangos

De repente, todos na minha família resolveram se interessar em fazer aula de dança de salão. A idéia é empolgante: a atividade estimula a socialização, trabalha músculos e o sistema cardio-respiratório, desenvolve a coodenação motora, é divertida... O difícil parecia ser compatibilizar o horário de todos e a modalidade. Meu pai tem mais inclinação para o bolero, minha filha prefere samba de gafieira, minha irmã quer forró... O horário ainda é um desafio, mas, pasmem, existe uma dança que todos querem aprender: Tango! Na hora dos ajustes, é claro que também me empolgo: quero dançar tango! Vem de imediato à minha mente a famosa cena de Al Pacino no fime Perfume de mulher (é de 1992, se você não o viu, não perca!) e suspiro enquanto comento com os outros a minha lembrança. Um amigo chileno reage: "Por que toda mulher gosta deste filme?". Na hora, rebato: "E por que todos os homens gostam de 'O poderoso chefão'?". O assunto se desviou e esquecemos o tango. Em casa, à noite, ligo a TV depois de dançar com amigos (é bom já ir treinando...) e, surpresa, vejo a figura impagável do oficial cego Frank Slade na minha telinha! Coincidência, o filme estava passando em um desses canais a cabo. Assisti como se fosse a primeira vez. Emocionei-me com as cenas, os temas ligados à superação e à amizade, as mensagens de ética e dignidade. Mas, confesso, continuo achando a cena do tango incomparável. Por que as mulheres gostam tanto desse filme? Bom, meu amigo chileno, vou falar por mim. Gosto da maneira como o personagem do Al Pacino enxerga (ainda que cego!) as mulheres. Ele as idolatra, as adora. É capaz de viver e morrer por elas. Com certeza, é um excelente amante! Dentro da casmurrice do personagem, a docilidade com que ele se dirige às mulheres (todas!) é comovente. Mas é uma docilidade por vezes agressiva, libidinosa! Na antológica cena, ele dança tango com uma jovem que estava sozinha em um restaurante à espera de um namorado que, parece, a negligenciava. O tango redimiu aquela mulher. Ela é outra depois da dança. E quem a refaz? Frank Slade/Al Pacino! Acho que todas nós sonhamos com um homem que nos faça sentir vivas, sedutoras, seguras, atraentes, perfeitas... Um homem paradoxalmente sensível e rude, que nos tome nos braços e nos ajude a viver. Como diz o protagonista, a vida é como um tango, se você erra um passo, você simplesmente continua... Ah! Ia me esquecendo: além de tudo, é um sujeito leal, honesto com seus sentimentos, por isso jamais fingiria ser o que não é só para conquistar uma mulher. Bom... acho que é por isso, sobretudo, que as mulheres gostam do filme. E os homens... o que os leva ao Poderoso chefão? Será também o Al Pacino?...

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

A arte de olhar

Meu filho, cuja sensibilidade para captar imagens é extraordinária, costuma dizer que fotografia a arte de eternizar o segundo. Alguns fotos têm inegavelmente esse destino histórico: quem não eternizou a guerra do Vietnã pela imagem de uma menina correndo com o corpo queimada e o rosto de pânico? Outras imagens capturam segundos individuais, que entram para a pequena - contudo enorme - história cotidiana das pessoas comuns: casamentos, batizados, aniversários, férias... instantes imortalizados pela imagem. Gosto de fotografias, a bem da verdade, tenho centenas de álbuns em casa. Estão todos um pouco jogados no quarto de fundo. Às vezes, vou lá furtivamente e dou uma olhadinha no passado. Sempre que vou, prometo que no próximo final de semana arrumarei tudo: catalogarei todas as fotos, colocarei em ordem cronológica, escreverei alguma coisa atrás para lembrar de onde foi tirada - é, porque na hora de tirar eu juro que lembrarei sem recado, mas depois -... bom, fim-de-semana que vem... quem sabe? Além de elas estarem em álbuns, também andam espalhadas em porta-retratos na minha sala e no meu quarto. Faço um rodízio de vez em quando para não abusar (será normal isso ?!). Mesmo que não gostasse de fotografias, acabaria admirando a arte por influência do entusiasmo de meu filho... mas gosto da prática e do produto. O que me aborrece, às vezes, é a disseminação das máquinas digitais e a banalização das poses. Preste atenção: elas estão em todo lugar, ganharam uma popularidade tremenda. E, como dispensam o custo da revelação do antigo filme a rolo, são engatilhadas como metralhadoras... clic, clic, clic... As adolescentes adoram, não vivem sem essas máquinas pós-modernas que fotografam, armezanam e apagam imagens com uma velocidade vertiginosa. São práticas, admito. Mas tiram a poesia do olhar. São a versão "fast-food" para a arte da fotografia. Antes, corrijo, para a arte do olhar. A facilidade dessas máquinas faz as pessoas verem o mundo através de uma telinha em que é possível dar o zoom. Acho que alguns de nós andam tão absortos com a engenhosidade das câmeras digitais que pouco prestam atenção ao mundo real que há do outro lado. Recentemente, fui a São Paulo com um amigo. Foi uma viagem maravilhosa, uma imersão cultural: museus, orquestras, teatro. Passeios inesquecíveis, paisagens inesgotáveis. No primeiro dia, esquecemos as máquinas (no plural mesmo, cada um tinha a sua propriedade), mas só percebemos no retorno ao hotel; lamentamos, afinal tantas imagens haviam se perdido... No dia seguinte, levamos as duas. E registramos muitas cenas, mais de mil, sem hipérboles. E assim aconteceu no dia seguinte. Tenho várias imagens da minha viagem a Sampa: só paisagens, paisagens e gente, só gente, de perto, de longe, naturais, posadas, sérias, engraçadas. De vez em quando, olho-as no álbum. Saudosismo romântico (Ah que saudades que tenho...). Mas confesso: a imagem que permanece na minha mente como a mais intensa daquela viagem não foi eternizada por nehuma foto. Perto da Estação da Luz, entre o Museu da Língua Portuguesa e a Pinacoteca (amobos os prédios devidamente enquadrados na telinha), eu vi uma mulher dar à luz. No meio do asfalto, cercada de alguns policiais e de muitos curiosos, uma mulher negra, sem-teto, sem-chão, sem-nada, paria. Uma criança insistia em nascer. Meu amigo apressou-me, queria ainda ver outra exposição. Eu parei, extasiada diante daquela imagem... e, num lampejo, sendo meio que puxada pelo amigo, olhei mais uma vez e vi a criança nascer. Foram segundos eternizados na minha memória. Naquele momento, eu sabia, acontecera o mais formidável espetáculo que iria ver naquela cidade aqueles dias. Uma mulher pobre pariu no asfalto. Emocionada, lembrei um poema de Drummond - A flor e a náusea- em que ele fala da dureza do asfalto e das flores que insistem em nascer quebrando o concreto. No versos do poeta mineiro, tudo era metafórico, falava-se em linguagem cifrada dos regimes totalitaristas e da esperança de redemocratização. Ao ver a mulher parindo, os versos tiveram um sentido particular e eternizaram o que eu sentia. "É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio". Pronto, a imagem existe na minha mente límpida e com legenda. Não foi necessário tirar uma fotografia.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

HB, querido

HB, meu bem! Quero de público agradecer por tudo o que você me fez este ano. Por tudo, mas principalmente pela sordidez do seu comportamento! Comprovei o que muitos filósofos vêm defendendo há séculos: a dor é uma oportunidade de crescimento incomparavalmente maior que o prazer! E você me fez crescer, HB, e como! Já suportei muita coisa na vida: unha encravada, dor de parto, depilação com cera quente, dívidas impagáveis, amores frustrados, dor de dente de matar... mas você superou todas as minhas desagradáveis, porém didáticas, experiências. Você me fez sentir a mais miserável e pequena das mulheres. Você foi um canalha. Um canalha desonesto, daqueles da pior categoria. Obrigada por isso! Não... não estou sendo irônica. De repente, sei lá, nessa entressafra de natal e reveillon (é assim que se escreve?) me bateu um espírito meio cristão-caridoso... Não... acho melhor definir o que sinto com o que os budistas chamam de transcender... é isso: do alto dos meus recém completados 42 anos, HB, eu transcendi você e toda a sua inominável canalhice! Sofri mais do que supus poderia agüentar quando, HB, vi que você, longe de ser uma figura angelical, era demoníaco. O mais covarde dos demônios, pois que se esconde sob falsas aparências. Acho os diabos declarados, do tipo ACM, mais interessantes do que você, se é que isso lhe interessa agora... Você, HB, foi torpe, vil, nefasto, cruel, desumando, cínico... Um ator canastrão representando melancolicamente um papelzinho de roteiro e fala previsíveis, preso a uma trama que acha controlar, meu pobre HB, o novo Truman`s show... Obrigada por tudo HB! Cicatrizada a ferida da traição e da indiferença, eu renasço ainda melhor do que era - e, sem sombra de dúvida, muito melhor do que você jamais será. Eu renasço orgulhosamente ostentando a minha infinita capacidade de amar, de entregar-me passionalmente, de ser intensa e honesta em meus sentimentos. HB, você conseguiu fazer que eu enxergasse o quão maravilhosa amante eu posso ser, como o meu caráter é generoso, como é mais fácil viver a solidão do que um amor que não compensa. E o seu, querido, não compensou. Foi fraco, superficial, protocolar, falso... Ah! como é bom estar liberta disto: do seu narcisismo imbecil, das suas desculpas envergonhantes, da sua vitimização débil! Do seu corpo inerte a querer carinhos sem ter de dá-los em troca... Ah! HB, pudesse eu agora estar ao seu lado, beijaria os seus pés em atitude de adoração. Você me fez transcender a cretinice daquela vida vulgar que eu levava estando junto a você! Obrigada, HB. De todo coração!

quarta-feira, 5 de abril de 2006

A um amigo

Distraída
só percebia as pedras
-tantas- no caminho...
Egoísta
não via as almas
-como eu- sozinhas
Insegura
não escalava as montanhas
-altas- da conquista
Tola
desconsiderava os sinais
-óbvios- de semelhanças

Tua voz quebrou minha distração
Tua dor destruiu meu egoísmo
Tua presença aniquilou minha insegurança
Teu equilíbrio redimiu minha tolice

Renasci na tua cumplicidade

domingo, 5 de março de 2006

Filhos....

Vivemos desempenhando papéis. Quanto mais vivemos, mais papéis... Deveríamos todos fazer curso de artes cênicas para nos sentirmos mais seguros no espetáculo da vida! Perverso espetáculo: não temos diretor, não temos ensaios e o improviso conta mais do que o texto! Os meus papéis são muitos, talvez mais do que eu consiga desempenhar: o de cidadã, o de mulher independente pós-moderna, o de amiga, o de filha, o de profissional... mas de todos, o que mais me desespera é o de mãe! Sinceramente, nunca sei o que fazer! Dou o tom de comédia quando a situação é trágica (e vice-versa!), não entendo as deixas, sinto-me uma atriz desastrosa!!! Me vem agora a certeza de que filhos deveriam vir - como os aparelhos de dvd - com manual de instrução, daqueles bem didáticos que vêm com uma parte assim: o que fazer em caso de... Não seria ótimo? Problemas?! Consulte o manual! ah... delírios! Adoro ser mãe, amo meus filhos ... gosto tanto que termino adotando outros ao longo do tempo... mas confesso a sensação de às vezes me sentir incompetente: dou amor de mais ou amor de menos? sou mais tolerante ou mais exigente? tento ser amiga ou sou simplesmente mãe? Alguns livros de terapeutas e pais mais-ou-menos-bem-sucedidos dão conselhos, mas não os acho confiáveis. E sigo meu instinto. Às vezes, quero pegar meus filhos no colo e niná-los como se ainda fossem crianças; às vezes quero lhes dar palmadas como se ainda fossem crianças... O meu coração me diz, entretanto, que eu só devo ficar por perto: não dizer nada, estar presente e ajudá-los a juntar os cacos quando for necessário... será que isso basta?

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

A mulher sozinha

O restaurante era pequeno e sofisticado. As luzes suaves, as rosas nas mesas e os inúmeros quadros de anjos sobre uma estreita prateleira em toda a parede provocavam em mim a sensação de estar em um bistrô francês... a noite estava perfeita. Meu amigo escolhia o vinho que iríamos beber. Foi uma escolha demorada. Distraí-me. Olhei em volta: mesas vazias, um grupo mais barulhento... e uma mulher sozinha. A cena, não sei por que motivo, me fascinou. A mulher sozinha ocupava uma mesa pequena bem à minha frente. Pedira uma garrafa de vinho tinto e trazia consigo um livro que ficava aberto mas raramente era lido. A luz fraca talvez lhe dificultasse a leitura, talvez o livro fosse uma maneira de não se sentir tão exposta... Escolhemos os pratos, conversamos sobre culinária, religião e outras esquisitices, mas, confesso, aquela mulher me perturbou. Os gestos dela eram precisos, lentos. O olhar parecia sereno. Degustou o jantar e o vinho com uma tranqüilidade que só alguns conhecem. E, sem querer, despertou em mim alguns minutos de digressão bem invasivos. Por que ela estava sozinha, àquela hora (era bem tarde), em uma quarta-feira chuvosa? Decerto estava em casa e a solidão sussurrou-lhe no pescoço que estava chegando. Talvez tenha se preparado para ela. Tomou banho, um copo de leite morno, assistiu à novela, deitou-se cedo. A solidão deitou-se com ela. Aquela mulher chorou, esperou o telefone tocar, procurou lembrar-se do tempo em que solidão era apenas um substantivo abstrato, pensou em comer chocolates. Depois, virou-se para a companheira de vida, de quarto e de cama e disse, decidida: Vamos sair? Um jantar só nós duas, um vinho, boa conversa... Que tal? A velha companheira aceitou. A mulher vestiu-se, passou batom nos lábios, borrifou perfume. Foi jantar num pequeno e sofisticado restaurante numa noite chuvosa de quarta-feira. Ela e a solidão. Faziam um par perfeito. Pareciam se divertir. Outra mulher, também amiga da amiga da mulher sozinha, viu a cena. Comoveu-se. Chego a achar que sentiu inveja...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Quem tem medo de Clarice Lispector?

Sobre minha escrivaninha, o maço de cigarros me adverte que fumar faz mal à saúde. Involuntariamente sorrio. Do lado do cigarro, há algo ainda mais prejudicial sem que haja nele qualquer advertência: um livro de Clarice Lispector. Que diabos de parâmetros são esses de acordo com os quais a nicotina é mais venonosa do que a visão lispectoriana do mundo? Ou a saúde pública não goza de capacidade de discernimento, ou não leu Clarice... Ela chegou às minhas mãos há muito tempo e sempre me assustou: sua densidade, seus mergulhos existenciais são potencialmente destrutivos e perturbadores. Mas hoje ela se reaproximou sorreteira, ressuscitada por um amigo-em-quem-me-vejo-como-um-espelho. Ah, amigo, foi maldade! Falar de Clarice reacendeu em mim um desejo meio-totalmente masoquista de me deixar arrastar pelo seu turbilhão discursivo. Estou apavorada: essa mulher era caso perdido ou perdida estou eu?... abro à revelia e em pânico uma página de seu livro."Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o risco sagrado do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade." Como posso ler isso e ir tomar sorvete como toda a gente, fingindo que não sei que isso foi escrito, com absoluta certeza, para mim. Eu tenho medo, sim, de Clarice Lispector: ela é intimidadora, como certos amigos que tenho... amigos que me fazem pegar do canto direito da terceira prateleira da minha estante o livro que é causador da minha agonia. Amigos que me fazem lembrar que viver é muito perigoso - embora o autor da frase seja G. Rosa. O que irá me sucumbir afinal: as milhares de substâncias químicas do meu cigarro ou a perigosa perspectiva da escritora ucraniana?... Acendo um cigarro, lembro de Augusto dos Anjos, outra ameaça, por causa da rima: "O beijo, amigo, é a véspera do escarro". Fumo calmamente e sem culpa, enquanto fecho o livro e o ponho fora de alcance. O estrago está feito. As feridas, expostas. Tenho contade de dizer ao meu amigo que isso não se faz... é caso de denúncia criminal. Mas já que ele o fez, o mínimo que pode me oferecer é colo... e cigarros.

domingo, 29 de janeiro de 2006

Eu sou Penélope!

Ninguém representa melhor o tema da espera do que Penélope: esperou o marido, Ulisses - bravo guerreiro na guerra de Tróia - , durante vinte anos. Vinte anos! É certo e indiscutível que o Ulisses que voltou não era aquele que havia partido: havia mais cicatrizes em seu corpo e em sua alma, mais desencanto talvez, mais sabedoria certamente. Penélope esperou, tecendo de dia e destecendo à noite, numa rotina assustadoramente perversa. Mas Penélope esperou. Todos esperam, não é mesmo? A água ferver para o café, o quinto dia para o salário, a situação política melhorar, a morte na UTI, vida na maternidade, o resultado da megasena, o tempo curar as dores... todos esperam. Eu também. Espero demais, é bom logo esclarecer. Mas sei que as piores esperas são as menores. O telefone tocar, por exemplo! Quer coisa mais angustiante do que isso? Às vezes, para fugir a ansiedade, não dá vontade de pôr a campainha no modo silencioso? A espera é cruel por dois motivos: pela imediata sensação de expectativa que ela produz e pela impotência que ela cria. Ou seja: me angustio por esperar, por me sentir ridícula por esperar, por saber que o fim da espera não depende de mim... Ou depende? Talvez sim. Claro! Eu posso decidir não mais esperar e, em vez de manter o toque silencioso, desligar definitivamente o telefone... Talvez não! Talvez eu deva mesmo ser prisioneira da espera. Uma Penélope moderna, que lê Saramago e bebe tequila enquanto espera. Oxalá não sejam vinte anos... eu espero...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

Um segundo para Deus rir

De férias e em Brasília, obviamente fui atacada pelo vírus do tédio. Para minimizar seus sintomas, joguei-me com fervor aos filmes e às músicas. Meus olhos e ouvidos jamais foram tão cobrados... Coincidentemente (ou não!), um dos filmes e uma das músicas de hoje falavam de uma questão que me intriga sempre e me aborrece quase sempre: a efemeridade das coisas, a fragilidade da vida, o fato de estarmos todos - e sempre - sobre o fio de uma navalha. O filme: Amores brutos; a frase: "quer fazer Deus rir, faça planos". A música: Tempo rei; a frase: "tudo agora mesmo pode estar por um segundo". Foi-se o tédio, veio a melancolia. De fato, só um segundo basta para mudar os planos ( para diversão de Deus). Quem é que já não experimentou a verdade disso? Você já viu seu humor, seu dia, sua semana mudar a um piscar de olhos por razões sobre as quais você não teve nenhum controle? Você tem noção de quanto um segundo pode mudar definitivamente planos para o dia, o mês, a estação, o resto da vida? Você já teve suas expectativas precocemente assassinadas pelo acaso, pelo inesperado, pela surpresa? Ou seja: você já protagonizou uma comédia para Deus? Não é mesmo lamentável tudo isso? Saber que vem aquilo-que-não-estava-nos-planos para infernizar nossa vida?.... Já sei que vão me dizer que, por isso, é preciso aproveitar o dia (Carpe diem, dizia o filósofo Horácio na Antiguidade). Eu sei...eu sei... qualquer manual de auto-ajuda vai repetir isso. Mas, cá entre nós, não há nada tão difícil, na prática, do que restringir-se ao presente, há? Estamos sempre um pouco no passado e um pouco no futuro, ainda que valorizemos o presente. O passado (fazer o quê?) não pode ser mudado... O futuro (fazer o quê?) é mudado, à revelia, contra nossa vontade, em um segundo. Ah! que venha novamente o tédio! Melhor do que o desespero...

sábado, 31 de dezembro de 2005

Lentilhas e metafísica

Ano novo, vida nova! As vitrines estão abarrotadas de roupas brancas. Alguns, entretanto, preferem fugir à regra e nos ensinam: amarelo para atrair dinheiro; rosa, amor; verde, esperança... Já teve retrospectiva 2005 na tv em todos os canais. A corrida de São Silvestre está rolando. Em milhares de casa, há lentilha no fogo, pernil no forno e champanhe na
geladeira. Quem mora perto do mar, já preparou as flores e o fôlego para pular sete ondas. As linhas telefônicas estão congestionadas. Milhões de pessoas estão fazendo listas mentais de promessas de ano novo que, provavelmente, jamais serão cumpridas... Como vocês podem ver: ano novo, vida velha! Hábitos antigos são mantidos de forma ritualística... o que me deixa um pouco desconfortável com o reveillon. Acho que eu queria entrar em coma em 26 de dezembro e só acordar em 5 de janeiro... Não sei bem o que me enerva tanto: a sensação de que estamos andando em círculo... a retrospectiva... a ingenuidade de acreditar que uma noite vai apagar tudo... meu mau humor... não sei, mas sinto-me aborrecida. Será mesmo tão importante esta última noite do ano? Calendários não são apenas convenções? Penso que nós devemos nos renovar a cada dia, a cada minuto. Fazer listas de intenções mais viáveis de serem colocadas em prática. Desejar paz a todos os amigos em todos os momentos que os encontramos ou nos lembramos deles. Penso também que devemos fazer balanços existenciais sempre que estivermos em fila de banco ou do detran...(do detran, principalmente). Bom... mas vou deixar para pensar nisso mais tarde. Agora tenho de temperar a lentilha e passar minha roupa. Branca, é claro. Ano novo!!!!

domingo, 11 de dezembro de 2005

Chronos, Aristóteles e Brad Pitt

Hoje me bateu uma vontade de analisar os gregos. Acho que é porque há uma overdose de Tróia na HBO este mês e Brad Pitt de Ulisses...bem... analisemos os gregos. Primeiro, acho que eles tinham toda razão quando construíram o mito de Chronos. Esse senhor - entre nós chamado de Tempo - é mesmo impiedoso: devora um a um os seus filhos sem qualquer manifestação de remorso. É, Chronos, você anda me devorando. E, cá entre nós, não está sendo nem um pouco divertido... Vou fazer 41 anos próxima semana. 41!!! Resta-me o consolo de que se, como dizem, a vida começa aos quarenta, comemorarei meu primeiro aniversário. Ridícula essa história!!! Mas não é isso o que vem me irritando em Chronos: essa passagem irreversível das horas é minha velha conhecida, não me assusta mais. O que me irrita nesse Senhor é que, antes, ele era mais benevolente comigo. Andava num ritmo mais devagar, permitia-me acompanhá-lo... Hoje não: o sujeito desembesta e eu tenho de ir atrás tentando controlá-lo. Veja que coisa mais cansativa: correr atrás do tempo. E não para grandes ações, não! É para coisisinhas miúdas do dia-a-dia que, antes, eu conseguia fazer sem dificuldades com aquele senhor...Escrever, por exemplo! Chronos, Chroninho, lindinho... amigo, amigo... me dá um tempo, né? Voltemos à análise dos gregos... Segundo (pus "primeiro" lá em cima, tenho de pôr "segundo": é uma questão de coesão textual, entendem?) acho que alguns eram - sem ofensas, afinal quem não é? - loucos. Aristóteles, por exemplo. O sujeito, que era vivia de pensar, não devia ter problemas com aquele Senhor... parecia ter tempo de sobra para filosofar, criar, imaginar, delirar... não o culpo: se eu tivesse aquilo-que-não-tenho-pois-o-sujeito-grego-não-é-mais-meu-amigo, é provável que também pensasse loucuras de vez em quando. Pois não é que o Aristóteles resolveu rotular os seres humanos. Eu sei que ele não foi o único, mas, convenhamos, achava que ele estivesse acima dessas segregações. Vejam bem: você pode ser do tipo super-humano, virtuoso, continente, incontinente e bestial. Super-humano: você é um super-herói. Virtuoso: você faz o certo sabendo que é o certo e não vê qualquer possibilidade de fazer o contrário, aliás você nem vê o contrário (ou seja, você é um herói). Continente: você faz o certo embora tivesse querido fazer o errado. Incontinente: você faz o errado, sabendo que é errado, e tem (ohhhhhh desgraça!) culpa! Bestial: você faz o errado e não vê nenhum problema nisso! E aí, qual a sua categoria? Você é um pouco de tudo? Depende do dia, da hora, do outro? Por favor diga que sim!!! Eu não posso estar sozinha nisso! Aristóteles, me perdoe, mas acho patético esse negócio de sair clasificando homens e mulheres. Não só patético, mas simplista. Todos nós caminhamos do bestial ao super-humano, às vezes em questão de minutos. Tento ser virtuosa - acho bonito dizer "virtuosa": não parece denominar uma mulher acima de qualquer suspeita? Mas não sou mentirosa (essa é uma de minhas virtudes): na maioria das vezes sou mesmo continente - repressão demais na infância, criação pequeno-burguesa, sei lá... me bate uma paúra às vezes de fazer coisas erradas. Outras vezes, não: faço coisas erradas (na hora, não sei por que, elas me parecem certíssimas) de forma incontinente (odeio, porque me leva à culpa, sentimento detestável!) e de forma viciosa (sem culpas, yeeeeesssssss!!!). Mas esse meu lado bestial me assusta. Aliás, o lado animal do ser humano me assusta. Ver o homem se transformar num bicho, agir como um bicho, deixar de lado a razão e ser dominado pelo instinto (raiva, sexo, autopreservação... não importa): isso é assustador. De vez em quando, me deparo com uma situação assim. Confesso: não gosto. A minha tendência é recriminar do alto da superioridade de minha personalidade virtuosa: isso é coisa de animal! Homens não agem assim! Mas no meu íntimo sei que pode acontecer com qualquer um: sai de cena o homem e entra a besta. Fazer o quê?! Esperar passar a fase, sentir culpa, pedir desculpa, tentar reparar o estrago, prometer ter controle... Ah! e dizer para o Aristóteles: amigo, posso agir como um animal e não ser um, por favor, não me rotule por ser, simplesmente, humano! Ah! os gregos... prefiro o Brad Pitt. Me deu vontade de assistir agora ao filme O clube da luta. Será por quê?....

domingo, 23 de outubro de 2005

Auto-sabotagem

No Aurélio, "sabotagem" é o ato de prejudicar, solapar clandestinamente. É uma palavra feia, mas cujo sentido nós apredemos a decodificar com o tempo. São muito os sabotadores que nos rodeiam. Há os sabotadores francos, que o fazem de maneira surpreendentemente assumida; há os falsos - os piores!- que se fingem de amigo e montam armadilhas em nossas costas. Há os tolos, coitados, que querem sabotar, mas não sabem como e caem no ridículo... Mas de todos os sabotadores, o pior somos nós mesmos. É esquisito, non-sense, absurdo, inecraditável: mas a auto-sabotagem tem cada vez mais adeptos. Gente que impede a sua própria felicidade, que faz de tudo para afastar de si amigos e sensações que dão prazer. Parece um tipo de gente frustrada, medrosa: o tipo de pessoa que, para não sofrer com as perdas (elas virão, é possível e provável), não aceitam a alegria dos ganhos (ainda que momentâneos). Pessoas assim não precisam de inimigos, revezam o papel de protagonista e antagonista de sua própria vida... na verdade, são os seus piores inimigos. O que leva alguém à auto-sabotagem? Algum desajuste psíquico tão grave que leva o sujeito a ofender aqueles que ama como quem diz "DEixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa..." Dizer aos auto-sabotadores: relaxe, aproveite a vida, não deixe de viver o prazer de hoje pelo medo do amanhã, carpe diem... não sei se esse discurso funcionaria... Penso que a única maneira de evitar esse comportamento é oferecer-lhe colo, palavras de carinho que aumentem sua auto-estima, muita tolerânica e, principalmente, perdão. Porque, depois da auto-sabotagem, vem a culpa...depois a vergonha...depois o isolamento...depois, finalmente (esse era o alvo), o sofrimento: seqüência boa para quem constrói suas próprias armadilhas... Os outros já nos prejudicam, nos solapam, sabotam nossos planos... não precisamos de ajudantes! Sobretudo de auto-ajuda (ou seria auto-flagelação?....).

domingo, 16 de outubro de 2005

Psiu....

Olhares. Gestos. Palavras. Silêncios. São tantas as formas de comunicação humana que às vezes é absurda a incomunicabilidade do mundo pós-moderno. Ou talvez ela exista porque o homem supervalorize o poder da palavra e faça discursos verborrágicos e vazios de siginificados. A palavra é o mais banal e perigosamente adulterável código de linguagem. Convenhamos: a tão fácil falar quanto falar o que não se sente. Falamos demais: frivolidades, acusações, mentiras... Acho que precisaríamos não falar durante, pelo menos, uma semana para sentirmos novamente o poder do toque, do olhar, do pequeno e do grande gesto. Podemos passar uma lista de assinaturas e, se conseguirmos o suficiente, entraríamos com uma petição no Congresso exigindo um decreto: Durante uma semana, todos estão proibidos de falar. Pena para o trangressor: ouvir ininterruptamente a Hora do Brasil!!! Talvez assim nossos sentidos ficassem mais aguçados para ir além das palavras. Talvez até conseguíssemos - ah! ilusão! - entender o silêncio... o mais cruel dos mecanismos de comunicação. O silêncio é carregado de ambigüidades, é prenhe de dúvidas. O silêncio deixa as coisas no ar, pode até destruí-las, mas não de uma vez: ele o faz com a lentidão dos perversos... O silêncio é um sinal de reticências contínuo... uma apnéia na hora do mergulho... o segundo que precede o pênalti. Silêncio: de quanto mistérios és feito? "Cala-te e aprende a ouvir-me" - ele me sussurrou agora. Psiu...

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Homem não chora?!

De tantos poetas precocemente chamados para o andar de cima, Gonzaguinha é um dos meus preferidos. É de extrema sensibilidade a letra da composição que diz"Um homem também chora, menina morena, também deseja colo, palavras amenas"... só um homem encantado seria capaz de expor assim, impiedosamente, a alma de todos os outros homens. Sim! Porque ele expôs a vulnerabilidade de um sexo que se julga forte e assim considera o outro como fraco. Sou mulher (nasci e, principalmente, tornei-me mulher) e, portanto, posso chorar, posso querer colo, palavras amenas. As pessoas entendem isso, ninguém vai me chamar de fraca, vítima ou coitada. Ao contrário, eu serei compreendida e consolada. Gosto de ter o direito de chorar e mostrar meu lado sensível... Por isso acho cruel ouvir certas expressões como "homem não chora", "menino, engole o choro", "carência é coisa de mulher". Como deve ser perverso viver nesse universo masculinamente frio, que impossibilita e reprime emoções como se elas fossem destruidoras vorazes de testosterona! Por isso, quero agora (perdoem-me as amigas) falar para os homens... Dizer-lhes que às vezes a vida é mesmo impiedosa, as dores são insuportáveis... e é preciso chorar (não! você não estará se vitimando nem manipulando sentimentos alheios: você está frágil, só isso!). Dizer-lhes que as grandes emoções podem chegar de surpresa, em pequenas coisas - um olhar mais profundo, um elogio fora de hora, um comercial de tv...- e é preciso expô-las, para que a caixa se esvazie e outras possam entrar (não! você não estará sendo ridículo e tolo, e, sim, honesto!). Dizer-lhes que as armadilhas do caminho podem ser sórdidas e as línguas podem ferir como punhal; e nesse momento é preciso - é absolutamente necessário - poder confiar em alguém e dizer "quero colo, acolha-me"... mais do que isso: aceitar o colo, pousar sobre ele, fechar o olhos e se deixar, simplesmente, ficar... (não! você não estará sendo fraco, você só assumirá seu lado humano). Amigos, permitam-se viver emoções. Vocês verão como, surpreendentemente, isso vai fazer de vocês homens mais interessantes...

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Só as crianças vêem anjos?! Então sou uma menina

Pronto!!! Definitivamente a vida anda me aprontando surpresas! Descobri que, se só as crianças vêem anjos, então eu sou uma menina. Para ser franca, já desconfiava disso: meu corpo nasceu uns trinta anos antes de meu cérebro e de meu coração! Vejam os sinais: adoro descobrir coisas novas; sou capaz de ouvir uma música ou ver uma obra de arte com os ouvidos e olhos mais pueris - fico tão empolgada que até me envergonho; acho o ontem e o amanhã tempos absurdamente longuíquos; de vez em quando ainda fico na iminência de perguntar o que eu vou ser quando crescer; gosto de devorar o mundo como se ele fosse um grande bolo de chocolate; adoro andar descalça e tomar banho de chuva; acredito em coisas estranhas -Papai Noel eu já superei, mas ainda creio em amizades eternas; adoro olhar arco-íris; dou gargalhadas abusivas; tenho ímpeto de perguntar a algumas pessoas: "Posso ser sua amiga?"; às vezes controlo a minha inclinação a fazer birras... Enfim, ainda sou uma menina. Não sei bem a minha faixa etária... Não.. cinco anos é muito pouco... talvez tenha uns dez. É. Dez! Estou ficando uma mocinha, portanto, olha só que perigo: posso perder a capacidade de ver além da matéria e de conversar com os anjos... acho que vou pegar um pouco do pó de pirlimpimpim e fazer o tempo congelar. Não é uma boa idéia?...

sábado, 8 de outubro de 2005

Os anjos existem!

Não imaginava que isso ainda pudesse acontecer comigo. Mas a vida é mesmo surpreendente: primeiro descobri que já fui uma mórula... e agora, para meu espanto, descobri que os anjos existem. Sim! Acreditem! Não ouvi um barulhinho de sinos, nem senti uma revelação epifânica... mas ele apareceu sorrateiramente na minha vida. Na verdade, eu já o conhecia, mas na sua forma humana, ele não me revelara sua origem angelical... talvez por vergonha, medo, falta de oportunidade, não sei. Nos últimos dias, entretando, percebi abruptamente uma de suas asas. Assustei-me, é claro, mas nada falei...poderia ter sido impressão minha. Qual o quê! No dia seguinte, eu vi as duas asas, ainda que timidamente expostas... Falei-lhe que o achava um anjo. Ele sorriu de forma ingênua e despretensiosa... sorriso de anjo, sabem como é. Até que finalmente ontem ele se despiu de sua antiga forma e mostrou-se o que de fato é: um anjo lindo, protetor, perfumado, tão etéreo que parece flutuar; tão leve que parece insustentável; tão belo que parece sonho... Meu anjo, não me importam as razões pelas quais tu estás no meu caminho; tampouco o tempo em que ficarás a meu lado. Insignificante é saber para onde vais, quando vais, por que vais, se vais ou não... O que meu peito pede agora é que pouses sobre a minha a tua mão macia e morna e me acalentes, me acolhas, me protejas ... e que, embora anjo, acordes a mulher que mora dentro de mim... até a finitude do eterno. Seja bem-vindo, meu anjo lindo!

domingo, 25 de setembro de 2005

Um dia é do caçador, outro....

Ela diz: "Estou cansada de ficar sozinha, esses homens não querem compromisso, nos usam e depois nos descartam. Tem mais: se você é inteligente, articulada e bem-resolvida eles nem te usam... têm medo!". Ele diz: "Eu quero uma mulher que seja minha cúmplice, minha companheira, mas eu quero conquistá-la, e as mulheres hoje não se deixam conquistar: são conquistadoras." Ela e ele são meus amigos. Um não conhece o outro (acho que seriam incompatíveis). São livres, independentes, bonitos, interessantes, sozinhos. Ela não se acerta com ningúem, embora tente. Ele, idem... Notam algo mais de semelhante entre eles? Não? Prestem atenção, releiam as suas falas... eles parecem viver em um passado longínquo! Não parece absurdamente anacrônico o que ela diz. Comecemos com o "Estou cansada de ficar sozinha": quantas vezes você já não esteve cansado(a) de estar acompanhado? Ficar sozinho(a) pode ser divertidíssimo, é só não associar isso à rejeição e fracasso! Depois: "esses homens não querem compromisso". "Esses" quem? Os disponíveis, os canalhas, os inteligentes, os que eu quero (que tal querer homens de outro tipo). E que compromisso: andar de mãos dadas, ir ao supermercado, trocar o pneu do carro, matar as baratas, casar, ser avalista de aluguel... quem quer compromisso? Compromisso é chato, entediante, burocrático. O bom é ser livre, ir e voltar por vontade e desejo. Depois tem o "eles nos usam e nos descartam"...Uau!!! essa eu nunca tinha escutado...que original... Pense bem, amiga, será que não você que os está usando?... tente mudar um pouco a perspectiva... Bem quanto ao "eles têm medo de mulher inteligente e articulada"... bom um homem assim merece mesmo é uma mulherzinha alienada, fútil, bonitinha, vazia, cuja mais brilhante citação seja uma frase de Adriane Galisteu, talvez da Luciana Gimenez... E o discurso dele, então? Não parece de um troglodita, neandertal ou coisa do gênero? Que idéia miúda essa de que a "mulher tem de ser conquistada". Que coisa pré-histórica isso de que o homem tem de ser o caçador... Vai olhar para a mulher e paquerá-la dizendo: Uga Uga!!! Que singelo! Por favor: isso é ranço darwinista de que o homem é fruto da evolução das espécies e tem um lado animal! Alô!!!! A idade da pedra passou, a idade média passou, a idade moderna está passando. As mulheres já podem votar, sabiam? Fazem sexo por prazer (juro!), pagam suas contas (e não apenas suas lingeries...), podem até pagar o drink e o motel, se valer a pena... Tudo bem, ainda têm TPM, menstruam e continuam parindo com dor... mas houve avanços. Reconheçamos. Aí vem o sujeito -bem, é meu amigo, mas.... - diz que quer ser o conquistador? Síndorme de Conam, o Bárbaro? Quando for visitar a conquistada vai fazer xixi nos quatro cantos do apartamento para demarcar território?! Amigos, atualizem-se. Amiga, perceba que estar cansada de ser sozinha pode ser apenas a repetição mecânica de um clichê da sua tia-avó soltira, compromisso a gente tem de ter com a própria felicidade, e que o verbo usar pode mudar da voz passiva para a ativa (usei em vez de fui usada). Amigo, amigo... não precisa mais ir para o mato caçar capivara para o almoço. Passe no supermercado mais próximo e veja como as coisas são práticas. Ah... também não precisa fazer atrito entre galhos para fazer fogo: já tem uma coisa chamada fósforo, outra coisa chamada isqueiro... Não se esqueça: coçar o saco é público é muito feio (sei que é coisa de macho, mas controle-se) . Ah... e principalmente, amigo, pense (prometa que vai tentar): ser conquistado pode ser maravilhoso, permita-se o prazer de servir-se como caça e forneça uma boa refeição!!! Sejam felizes. Se puderem.

domingo, 18 de setembro de 2005

Pagar para ver!

Sabe aquelas finais de jogos em que não é possível ter empate? Pois é, alguns jogos da vida são assim: é ganhar ou perder. Sempre tive medo desse tipo de situação (confesso que, na hora das decisões por pênaltis, não consigo ficar na sala vendo a TV... ). Esse medo de perder me paralisa a vida: faço poucas apostas, raramente blefo, sou a primeira a sair da mesa. Admiro - e muito - aquele tipo de pessoa ousada que tudo arrisca e, se tudo perder, não lastima ou desanima: afinal faz parte do jogo - dizem com a naturalidade dos apostadores compulsivos... Não sei que tipo de situação nos tira dos trilhos (ou, enfim, nos coloca neles...), mas ontem eu paguei para ver! Que medo, que vergonha, que pavor terrível tomou conta de mim quando eu joguei os dados na mesa - ainda mais porque - pasmem! - quem propôs o jogo fui eu! Que ousado espírito tomou conta de mim para que eu fizesse isso? Até agora não sei... Sei que joguei, apostei alto, arrisquei, perdi o controle (meu Deus!), sabendo que não haveria empate: ou eu ganharia ou eu perderia. E sabem o que aconteceu? Eu perdi. E não foi uma derrota qualquer... foi um pouco humilhante, muito desoladora, absolutamente constrangedora, inesquecivelmente dolorida. Mas, apesar de tudo, eu me sinto uma vencedora. Por quê? Porque eu tive coragem de jogar, arriscar, expor-me à vitória ou à derrota, mas expor-me... sair da cozinha e ver os pênaltis na televisão. Poderia ter sido melhor se eu tivesse ganhado... será?... não tenho certeza. Talvez seja uma forma de consolo, não sei, mas acredito que o prazer - para mim, hoje - não está em ganhar... definitivamente não! O prazer que toma conta de minha alma hoje vem do orgulho de ter rolado os dados enfim... e de ver que eu ainda - embora já nem desse conta disso - estou no jogo!!! Que venham outros dados e novos jogadores!

sábado, 17 de setembro de 2005

Do anonimato e outras covardias

As máscaras são um prato cheio para a psicanálise. É impressionante como as pessoas se sentem protegidas quando estão mascaradas: a personalidade se dissipa, os valores morais e éticos se flexibilizam e as verdades se soltam... dê uma máscara a alguém, proteja-o na cômoda situação do anonimato, e verá quem ele realmente é. As máscaras usadas nas comemorações do carnavel têm protegido secularmente indivíduos que jamais se revelariam de cara lavada. No mundo pós -moderno, a comunicação virtual da internet funciona como máscaras na nossa prática social: pelo teclado e pelo monitor, sob a segurança do contato virtual, podemos criar falsas imagens, contar falsas verdades, dizer coisas que seduzem, magoam ou perturbam sem nos preocuparmos em sermos descobertos. A virtualidade da net nos dá a serena garantia do anonimato. É prático, mas não é honesto... cá entre nós, é até covarde dizer aos outros o que eles não merecem ouvir sem lhes dar a chance de contra-argumentar, pois o interlocutor é um ser "anônimo". Aprendemos que é covardia tirar doce de criança, bater em gente menor do que a gente, esquivar-se da responsabilidade de ações deliberadamente praticadas, maltratar quem já está destruído... mas é preciso ver que, dentre as muitas covardias a que estamos expostos - como praticantes ou receptores - o anonimato é, talvez, a mais perversa: ele destrói sob a segura certeza de que não será descoberto, protege-se sob a máscara do irreconhecimento... Amigos, sejamos bravos... assinemos nossas considerações, assumamos nossos posicionamentos! Abaixo a covardia do anonimato!!!

quarta-feira, 7 de setembro de 2005

Amor, afinal...

Em mesa de bar, a conversa não tem rumo certo: muda-se de assunto na mesma velocidade em que se pede mais uma rodada. Política, futebol, o sujeito da mesa ao lado, o preço da cerveja... tudo isso é comentado em menos de 5 minutos. Não entranhei, então, que aparentemente do nada alguém tenha-me feito a pergunta: "Qual a diferença entre amor e paixão?". Antes de dar uma resposta (se é que eu a tinha), reparei bem o perfil do meu interlocutor (na verdade, interlocutora): uma jovem de aproximadamente 20 anos, de bem com a vida, bela, inteligente... bem longe dos padrões ingênuos de certos eternos adolescentes. Naiara é seu nome. Naiara não é ingênua, mas tenho a impressão de que ainda conserva certa tendência aos sonhos... Naiara acredita no amor. E eu desiludi Naiara, dizendo-lhe que o amor só existe, de maneira eterna e incondicional, entre mãe e filho. O resto é paixão, carência, desejo, amizade... Impiedosamente, talvez, tenha-lhe entristecido a alma. Perdoe-me, Naiara! Queria poder manter os seus devaneios românticos. Queria dizer que cada um de nós tem uma alma gêmea e, se formos bonzinhos e dermos sorte, ela aparecerá...Queria dizer que o sentido da vida é amar, que sem amor é impossível ser feliz... Queira dizer que a sensação de desejo que algumas pessoas nos despertam pode ser eterna... Queria dizer que a cumplicidade de andar de mãos dadas pela rua às três da madrugada pode ser perpetuada... Queria dizer que amar só depende de você, amor é via de mão única... Queria dizer que nada é mais confortador do que saber que um outro existe com quem dividir planos, alegrias e frustrações... Queria rir dos que negam o amor, dizendo que eles nunca amaram... Juro, Naiara, que eu preferiria ter dito essas palavras... mas a vida paralisou minha vontade no momento (ou momentos?) em que descobri que, lamentavelmente, isso tudo é uma grande mentira. Perdoe, jovem Naiara.

sábado, 27 de agosto de 2005

Eu, pecadora?!

Trabalhando com literatura e, de vez em quando, passeando pelo Barroco, não dá para passar indiferente sobre alguns textos. Os de Gregório de Matos, por exemplo, parecem-me sempre muito atuais: o sujeito peca, arrepende-se porque quer salvação, e se dirige a Deus, ameaçando: "Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada. Perdoai-me e não queirais, pastor divino, perder na vossa ovelha a vossa glória!" . Esperto esse sujeito, não? Parte do pressuposto de que, havendo arrependimento, haverá, necessariamente perdão... mas não é bem sobre isso que quero falar. De repente me deu uma sensação de que os meus pecados têm sido poucos, superficiais, irrelevantes. O que me leva à imediata conclusão de que estou aproveitando muito pouco a vida. Vejamos: ira e avareza são coisas que nunca fizeram muito a minha cabeça. às vezes tenho vontade de jogar coisas e pessoas pela janela (defenestrá-las - olha que verbo chique!), mas a vontade normalmente passa rápido; e minha carteira anda vazia talvez por falta de avareza... Cobiça, bem... digamos que ela esteja bem no limite entre a admiração e a inveja, mas nunca fiz despacho ou coisa que o valha em função disso... o que alivia minha barra. Vaidade... eis aí um pecado que requer duas coisas que andam escassas em minha vida: tempo e dinheiro! Lúxuria, então, nem se fala... o que é mesmo isso?! Há tempos a maçã da perdição (salvação?!) não me é oferecida. Resta-me - pobre de mim!!! - a preguiça e a gula... Comer mais do que o necessário (chocolates...hum....) e dormir, quando há tempo, mais do precisava... esses são os meus pecados. Veja se isso não afeta definitivamente minha reputação!!! São pecadinhos à toa, desses cotidianos, ninguém os leva mais a sério... Será que nem pecar mais direito eu sei?!! Como serei perdoada por tão míseros pecados? Acho que Ele quer pecados grandes que façam valer a pena o esforço do perdão... Ah! saudades do tempo em que os meus pecados eram impublicáveis...

sexta-feira, 19 de agosto de 2005

Educação ou sedução?

Fui educada com esmero pelos meus pais. Se alguma coisa saiu errada, não foi culpa deles! Aprendi a ser gentil, dizer "por favor", "obrigada", "com licença" e outras expressões mágicas... entendi que não custa nada perguntar"como vai?", "quer ajuda?"... Sem falsa modéstia, posso dizer que, além de bem educada (por méritos alheios), tenho uma tendência a ser simpática: costumo sorrir enquanto falo, faço brincadeiras para quebrar o gelo, gosto de ser carinhosa com todos... enfim: sou gente boa (é o que acho!). Para manter velhas e consolidar novas amizades, telefono de vez em quando, mando e-mails de quando em vez (gentil, não?). Ultimamente, porém, ando meio perturbada com isso... começo a perceber que algumas pessoas confundem esse tipo de comportamento ("ser legal") com jogo de sedução amorosa! Uma mulher descasada, quarentona e aparentemente bem resolvida não tem o direito de ser atenciosa sem que pareça estar "dando em cima"?! Será que agora vou ter de me despersonalizar e incorporar o tipo sem graça, tímido, calado... só para que ninguém ache que eu sou uma caçadora, sedutora, facilitadora ou qualquer "ora" que o valha?! Será que vou ter de contrariar as orientações dos meus pais só para não ser rotulada do "tipo-de-mulher-que-dá-mole"?! Eu poderia até tentar (tudo em nome da honra!), mas, cá entre nós, me recuso! Esse modelito frívolo de sociedade que confunde gentileza com cantada não me agrada e nem me cai bem! Vou continuar procurando ser simpática e agradável com todos. No dia em que eu quiser seduzir, as armas serão outras... bem diferentes. É isso!

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

Já fui uma mórula!

Estava eu lendo um texto, escrito pela doutora Alice Ferreira, sobre descriminalização do aborto. Ela é absolutamente contra, argumentando que cientificamente já se provou que o início da vida é o momento da concepção - o aborto seria, então, um assassinato. Deixarei as questões morais de lado, porque o que mais me intrigou no texto foi um trecho que assim diz: "Todos nós passamos pelas mesmas fases do desenvolvimento intra-uterino: fomos um ovo, uma mórula, um blastocisto, um feto". Como assim? Eu já fui uma mórula?! Ter sido um ovo me constrange um pouco, ter sido um blastocisto até me envaidece, ter sido um feto...normal. Mas uma mórula?! Ah, isso não! Definitivamente eu não estava preparada para essa notícia. Entrei em crise pessoal e deixei o debate sobre o aborto de lado. Nada é mais importante do que o fato de eu ter descoberto, assim de forma abrupta e fria, que eu fui "aquilo". Na busca de minha identidade, tenho convicção de que fui muitas coisas na vida. Já fui séria (seriíssima, diga-se de passagem), temperamental, sedutora, santa (pero no mucho), sentimental, irônica. Já fui aluna, professora, namorada, amiga, noiva, mulher. Já fui baixa, careca e desdentada (mas isso já faz muito tempo). Reconheço até que já fui vil, mesquinha, vingativa, ridícula. Mas... uma mórula?! Por essa eu não esperava... Mas agora, pensando bem, talvez isso explique uma série de coisas: só pode ser por isso que tenho crise de riso, o pé direito maior que o esquerdo, reações precipitadas, muitas sardas nas costas... Isso explica (claro! por que não percebi antes!) as minhas oscilações de humor, os meus ataques de espirro, a dificuldade de aprender trigonometria, o meu cartão de crédito estourado!!! Que coisa! Cinco anos de terapia se desmoronam diante desta verdade inexorável: eu fui uma mórula. Preciso rever todos os meus conceitos existenciais... O meu consolo é que, se eu já fui, você também, um dia, foi! Ufa! Que alívio!

terça-feira, 9 de agosto de 2005

(Des)controle

Que me desculpem os aventureiros, mas o mínimo de rotina é fundamental. Adoro a sensação de que tudo está dentro das expectativas, amo a idéia de que está tudo sob controle - apesar de ultimamente não ter tido muito controle nem sobre o controle remoto da televisão (ah! filhos!!). Sair da rotina me incomoda, os imprevistos me desesperam... tenho um certo prazer em controlar minha vida, mesmo sabendo que isso é uma doce ilusão, e que ter controle é apenas ter a ilusão do controle. Ainda assim, dá-me paz acreditar que tudo o que acontece na minha vida é previsível e decidido por mim - acho que sofro da síndrome de deus, fazer o quê? Terapia? Ah, já faço! Nas questões pessoais, então, sinto-me bem poderosa. Estou sozinha porque quero e não é só isso: continuarei sozinha porque quero... Bobagem, ingenuidade, tolice. De repente, do nada, acontece o imprevisto e eu perco o controle. Minhas emoções tão seguras se dissolvem e eu me sinto um daqueles antigos brinquedos (o Tamagochi, lembram-se?) que precisa ser alimentado, amado, enfim, eca!, controlado. Sim, sim...estou falando de amores repentinos, daqueles que nos desestabilizam e nos tiram da rotina! Mas esse tipo de tema, convenhamos, não se adapta muito a uma crônica... merece uma poesia! Então, lá vai:

A TEIA

Eu, que me julgava tão soberana,
senhora das minhas vontades,
fui capturada pelo inesperado.
Tão acostumada estava a nada esperar
Tão acomodada sentia-me à minha solidão
Tão sensatas julgava as minhas escolhas
Tão traqüilos eram meus caminhos
Eu, ridícula e tola,
Fui violentamente seqüestrada pelo inesperado.
E agora,
Nesta teia em que me encontro,
Feita de olhares, esperas e silêncios,
Espero, humilde e ansiosa,
Que outro inesperado me salve.


Alguém tem um controle para empréstimo, aluguel ou venda? Paga-se bem!

domingo, 7 de agosto de 2005

Ah... os domingos

É domingo. Meu Deus. É domingo. Mesmo que tirassem do meu alcance todos os calendários e eu vivesse uma relação de tempo intuitiva, ainda assim eu saberia quando é domingo. O vazio melacólico das ruas, a interminável preguiça, a entendiante programação da televisão, a vontade de sequer tirar o pijama ou arrumar a cama... essas coisas e outras que estão no ar denunciam que o domingo chegou. Que fazer, então? Churrascos com pessoas conversando além dos decibéis suportáveis? Restaurantes lotados com famílias para as quais o domingo é a libertação da escrava do lar que cozinha de segunda a sábado? Almoços familiares que trazem à tona sempre velhas rixas que se julgavam esolvidas há tempos? Ligar a televisão e ficar apertando o controle remoto a cada 5 segundos com o comentário de " essa programação é patética"? Ir ao clube e, depois de lutar para encontrar um lugar para colocar a toalha, lambuzar protetor solar fator 60 pra não se expor ao câncer, ouvir crianças gritando que querem sorvete, homens olhando acintosamente a bunda das meninas, sentir o cheiro de urina que emana da piscina? Ficar em casa é opção: ler, arrumar gavetas, fazer uma comidinha caseira, cochilar à tarde... mas, lembrem-se, é domingo, não há disposição para isso. No final do dia, a música do Fantástico avisa que a tortura está quase acabando (aliás, vou propor que nos mobilizemos contra essa música - tenho a impressão de que ela provoca depressão aguda). Resta-nos o consolo de ir domir pensando: O domingo acabou! Mas a algegria dura pouco. Esse diabo é persistente e pontualíssimo: aparece, sem a menor cerimônia, semanalmente... entre a balada do sábado e a rotina da segunda. Não há como dele escapar...É domingo. Meu Deus. É domingo.

sábado, 6 de agosto de 2005

Sobre a inveja

Vocês conhecem aquela pessoa que faz o modelo-perfeito-em-tudo-o-que-faz-e-nunca-comete-erros? Eu conheço o tipo...aliás, tipa! A criatura é inteligente, elegante, carismática, bem-resolvida, e (ahhh!) linda de viver. Um dia desses, fui visitá-la meio que de surpresa (essas coisas que em Brasília nunca ninguém faz: "tava passando aqui perto e vim te ver!"). Pois bem, acreditem: a criatura estava arrumada como quem vai ao shopping. Perguntei, com absoluta vergonha de ter ido visitá-la em hora imprópria, se ela iria sair. Ela sorriu, disse que claro que não e me levou ao seu quarto para que eu pudesse ver o que ela estava fazendo... não pensem maldade, muito menos de alguém assim... Bom, ela estava arrumando o guarda-roupa, tinha tirado todas as peças, estava passando as roupas amarrotadas, dobrando direito as camisetas, agrupando por ordem de cor as calcinhas. E ela estava arrumada!!! Perguntei por que ela estava daquele jeito, pronta pra sair. Sabem o que ela me respondeu? "Ah! isso é roupa de ficar em casa!". Como assim? roupa de ficar em casa?!! EU tenho roupa de ficar em casa: camisetas meio puídas, bermudas velhas, chinelo havaiana se eu não resolver ficar descalça, indumentárias inúteis para qualquer outro evento senão ficar em casa! Aquilo era roupa de sair! Ah, meu Deus, tinha descoberto outra virtude nela... agora só faltava eu descobrir que ela acorda com hálito fresco de hortelã e nunca na vida teve flatulência...
Por que mesmo comecei essa história?... ah lembrei: minha filha fez uma redação sobre Admiração e inveja - o que diferencia esses dois sentimentos - e eu achei o tema filosófico demais para uma garota de 13 anos. Penso que não teria muito o que escrever sobre a matéria, pois vejo um limite territorial excessivamente estreito entre as duas palavras. Admiramos quem gostamos e invejamos quem não gostamos, diriam alguns. Mas não acho que seja assim tão simples: gosto da criatura, mas a invejo! Sim, mea culpa, mea culpa, mea culpa! Pequei, Senhor, perdoa-me, caí na fácil armadilha dos que não têm personalidade e padecem desse vil sentimento, também conhecido como pecado capital, chamado inveja! A admiração é para os altruístas, os que são tão perfeitos em tudo o que fazem não faz sentido terem inveja, os iluminados... ou então para os hipócritas, que dizem o que não pensam. Não sou assim, admito, nem iluminada nem hipócrita. Algumas pessoas me causam inveja sim! Só que não preciso, por causa disso, torcer contra elas, recorrer à mandinga, puxar o tapete, fazer intrigas! Posso conviver bem com a vontade de ser também daquele jeito, sem torcer para que o outro não o seja. "Ah, Tereza", alguns tentarão me consolar, "isso é admiração". Não é não gente, é inveja... e é uma merda.